Agora que Bad Bunny transformou a bandeira de Porto Rico num ícone global. Agora que o «Conejo Malo» aproveita o palco do Super Bowl para reivindicar a latinidade e sacudir a poeira do racismo sistémico. Agora que nas salas de Barcelona se dança com a mesma intensidade com que se canta aos Tyets, é o momento perfeito para resgatar um capítulo da nossa história que parece ficção: houve um tempo, não muito distante, em que se podia atravessar o oceano, pedir pão em catalão numa praça caribenha e receber uma resposta com toda a naturalidade.
Não é uma lenda urbana nem uma anedota de bar. Porto Rico e a Catalunha partilham um cordão umbilical linguístico e social que sobreviveu a milhares de quilómetros e que, ainda hoje, explica quem manda na ilha e por que alguns dos seus recantos nos parecem estranhamente familiares.
A «ilha linguística» dos indianos: de Mayagüez a Barceloneta
A história começa no século XIX. Enquanto Barcelona derrubava as muralhas para crescer, milhares de catalães e maiorquinos rumavam para Porto Rico para explorá-la, construindo impérios baseados no açúcar, no café e no comércio marítimo. Mas, ao contrário de outros migrantes que se diluíam no novo destino, os catalães formaram uma estrutura social compacta e, acima de tudo, muito ruidosa em termos linguísticos.
Em cidades como Ponce ou Mayagüez (onde chegou a existir um “bairro catalão” propriamente dito), a língua da rua não era apenas o espanhol com sotaque caribenho. O catalão era a língua dos negócios e da confiança. A marca foi tão profunda que, em 1881, um industrial chamado Bonós Llensa fundou oficialmente o município de Barceloneta. Sim, uma pequena réplica da nossa fachada marítima às margens do Atlântico, que nasceu para dar abrigo aos trabalhadores das plantações da região.
Proibições telefónicas e apelidos poderosos
O mais curioso dessa resistência cultural é que o catalão em Porto Rico sobreviveu até mesmo às pressões da metrópole. No final do século XIX, chegou a existir uma proibição oficial de falar ao telefone em catalão na ilha, sob o pretexto de que os funcionários do governo não podiam fiscalizar as conversas se não entendessem o que era dito. Mesmo assim, a comunidade fez ouvidos moucos e manteve a língua viva durante três gerações consecutivas.
Essa hegemonia não era só romântica, era econômica. Famílias como os Rosselló, os Serra, os Barceló ou os Defilló formaram uma oligarquia que domina a política porto-riquenha até hoje. Se fizermos as contas, dos treze governadores que a ilha teve desde que começou a elegê-los democraticamente em 1948, sete deles têm raízes catalãs diretas. De Pedro Rosselló a Sila Calderón Serra (cuja família era de Alaró), o ADN da Generalitat parece ter se replicado no Palácio de Santa Catalina, em San Juan.
O violoncelo que une Mayagüez a El Vendrell
Até os mitos culturais que sentimos mais nossos têm um pé em Porto Rico. Poucas pessoas se lembram que Pilar Defilló, a mãe de Pau Casals, nasceu em Mayagüez. Foi essa ligação vital que levou o maestro, anos mais tarde, a exilar-se e estabelecer-se na ilha, criando uma ponte musical que uniu para sempre os violoncelos de El Vendrell com a brisa das Antilhas.
Hoje, embora o catalão tenha deixado de ser ouvido nas lojas de Aguadilla, o seu rasto continua lá: na arquitetura das antigas fábricas de açúcar, nos apelidos dos líderes atuais e, permitam-nos sonhar, numa futura e improvável canção de Bad Bunny (ou, como nós o chamamos, o «conill dolent»).
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