Há lugares em Barcelona que cheiram a tardes de domingo, a risos de crianças e à ilusão partilhada de ver o pano a abrir-se. Durante quase quatro décadas, um pequeno recanto da rua Sèneca foi o refúgio onde milhares de crianças descobriram pela primeira vez a magia das artes cénicas. No entanto, as histórias que ali eram contadas estão prestes a chegar ao seu último capítulo definitivo neste local.
O Jove Teatre Regina vai fechar as portas definitivamente no próximo dia 15 de julho, após 38 anos de trajetória ininterrupta. A histórica sala, gerida pela companhia de teatro familiar La Trepa, despede-se da cidade depois de ter enfrentado o desprezo histórico de que o teatro infantil costuma ser alvo, alcançando um número espetacular de mais de 800 espetáculos e ultrapassando os dois milhões de espectadores ao longo da sua história.
O peso dos tijolos contra a cultura
O desaparecimento deste ícone cultural da cidade não se deve a uma falta de interesse por parte dos seus fiéis seguidores. Segundo explica a diretora do teatro à Betevé, Mariona Campos, que assumiu o testemunho familiar na gestão do espaço em 2013, os motivos são puramente externos. A sala não fecha por falta de público, de propostas artísticas ou de projetos para o futuro, mas sim devido à pressão imobiliária implacável na zona.
A sociedade limitada proprietária do imóvel decidiu não renovar o contrato de arrendamento com os gestores do teatro. Inicialmente, a propriedade concedeu-lhes um prazo de três semanas para desocuparem o local, um prazo que acabou por ser prolongado para três meses. Campos lamenta profundamente a situação, garantindo que se viram obrigados a fechar sem terem tido qualquer margem de manobra para organizar uma transição suave ou procurar locais alternativos onde dar continuidade ao seu trabalho.
Dúvidas sobre o destino do local
O destino das paredes que abrigaram tantas ilusões continua a ser uma incógnita. Perante os rumores de uma possível compra do edifício por parte do El Mago Pop, a atual direção do Regina esclarece que apenas mantiveram uma única reunião com eles para lhes explicar a sua atividade. Nessa reunião, concluíram que a coexistência de ambos os projetos era impossível, uma vez que os interessados não pretendiam ser arrendatários, mas sim explorar o espaço diretamente. Atualmente, a companhia do teatro afirma não ter contacto com os atuais proprietários nem saber se essa transação chegará a concretizar-se.
As últimas apresentações oficiais da sala tiveram lugar no passado mês de maio. Desde então, a equipa do teatro está imersa na desmontagem, uma tarefa tão intensa que nem sequer lhes está a deixar tempo para organizar uma festa de despedida à altura do seu legado.
Apesar da tristeza do momento, o Jove Teatre Regina lança uma mensagem de esperança para o futuro do projeto. Defendem que da rua Sèneca só se retira o edifício e as paredes, mas que o conteúdo e a alma da companhia ficam livres a partir de agora para encontrar um novo lar onde continuar a desenvolver a sua atividade.