Mal guardámos o casaco e já estamos a olhar de soslaio para o ventilador. O que vivemos nestes últimos dias, com termómetros a ultrapassar os 30 graus em pleno início da primavera, não é só uma anedota para comentar na fila do supermercado, mas sim o trailer de um filme que promete ser sufocante. A culpa por esta «estreia» antecipada é de um velho conhecido da meteorologia que este ano regressa com esteróides: o fenómeno El Niño, que os especialistas já começaram a chamar de «Superniño» devido à sua força invulgar nas águas do Pacífico.
Esta anomalia térmica, que se origina a milhares de quilómetros das nossas praias, funciona como uma peça de dominó gigante. Quando a água do Pacífico Sul aquece drasticamente, acaba por alterar a circulação atmosférica a nível global. O resultado para nós costuma ser uma autoestrada aberta para que as massas de ar africano se instalem na Península sem pedir permissão, transformando as nossas ruas numa verdadeira caldeira onde o asfalto parece querer derreter a cada passo.
Um efeito dominó que nasce no Pacífico
Tal como explicam na Cadena Ser, as condições que se formam no Pacífico demoram alguns meses a repercutir-se no clima europeu. Dado que este aquecimento já está a mostrar uma potência sem precedentes, os modelos indicam que o pico de calor coincidirá precisamente com os meses centrais do verão. Não é só que vai fazer calor, é que se espera que o anticiclone se instale de forma persistente, bloqueando qualquer entrada de ar fresco.
De acordo com dados da AEMET e de vários centros europeus de previsão, a probabilidade de este verão ficar entre os 20% mais quentes já registados é extremamente alta. O aquecimento global não só está a tornar estes episódios mais frequentes, como também está a tornar o El Niño muito mais instável e extremo, o que se traduz numa maior dificuldade em prever se vamos enfrentar uma seca persistente ou tempestades repentinas e violentas após as ondas de calor.
O refúgio do Cantábrico como última esperança
No entanto, neste mapa tingido de vermelho intenso, parece haver uma pequena mancha de esperança (ou, pelo menos, de ar respirável). A configuração dos ventos que este «Superniño» costuma trazer favorece a formação de anticiclones que, em determinadas posições, impulsionam ventos do norte em direção à cordilheira cantábrica. Isto significa que, enquanto o resto de Espanha procura desesperadamente um pouco de sombra, os habitantes e visitantes do norte poderão desfrutar de uma pausa térmica considerável, mantendo-se à margem das temperaturas sufocantes que vão assolar o Mediterrâneo e o centro da península.
Se a tendência se confirmar, o êxodo de férias para o norte não será só uma questão de paisagem, mas de pura sobrevivência climática. À medida que o fenómeno vai ganhando força, os especialistas recomendam que fiquem atentos às atualizações, embora tudo indique que este ano, mais do que nunca, a hidratação e procurar abrigo dos ventos do norte serão as chaves para sobreviver a um verão que promete não nos dar trégua.